Por que as mulheres latinas são símbolos de fragilidade e sexualidade?

por Tathyana Ricardi
tathyana@geleiageral.com.br

"A libertação feminina não ocorrerá totalmente nos marcos desse tipo de sociedade em que vivemos, porque ela implica na mudança da mentalidade nos dois sexos." (Dulce Whitaker)

10-06-08 - Certa vez, numa aula de Filosofia, um professor disse que a cultura mundial era homem, branco e europeu. Achei um contesto sexista e racista, mas logo me dei conta que a realidade é esta.

Desde os tempos bíblicos, a mulher é relatada como sedutora e manipuladora do homem. Temos Eva e a serpente, a mulher adultera e Ester que convenceu o rei a ajudar seu povo pela beleza. Somente após mais de 2000 anos, novos estudiosos e teólogos levantaram a questão da fraqueza do Adão diante da tentação e da absolvição do homem adúltero igualmente pecador.

Durante séculos, a historiografia da mulher foi distorcida e omitida pela biografia dos "grandes homens" na realização dos feitos históricos. Mulheres militantes e batalhadoras, como Maria Quitéria, Josefa Domingues e Anita Garibaldi, foram resumidas a seres apaixonados que seguiam seus companheiros.

Como a maioria das mulheres se dedicavam à vida privada, os registros tratam apenas das "histórias orais" das tradições familiares para a execução dos trabalhos domésticos e artesanais. Para Perrot Michelet, a exclusão da mulher era decisão da lei paterna e da autoridade real. Restavam então, às exceções, documentações pouco valorizadas.

Somente com o movimento feminista organizado no Ocidente do século XIX, a mulher é resgatada e incluída nos documentos históricos com a extensão do direito ao voto. Em meados de 1970, partem para a vida pública nos campos da educação e nas fábricas têxteis. Em 1980, estendem-se para as demais áreas profissionais. Hoje, temos mulheres no poder como a Primeira-Ministra da Ucrânia Yulia Tymoshenko e a presidente do Chile Michelle Bachelet.

E, mesmo assim, o cotidiano de uma mulher na sociedade latina ainda é arcaico. Em meio a ditados e achismos populares, reúne vida pessoal e profissional entre cuidado dos filhos e do marido, arrumação e ordem da casa, contatos com clientes e a dura tarefa de se afirmar no mercado como uma figura masculinizada. Coitada se, por alguns instantes, chorar por qualquer motivo na TPM. Da mesma forma, a mulher solteira que troca a atenção da família pelo desespero de arrumar um marido antes dos 30 anos e manter seu emprego ou sua reputação.

Uma amiga, vamos chamá-la de Caríssima, passou por este problema meses atrás. Solteira convicta, sofreu tanta discriminação dos amigos e da família que resolveu arriscar uma relação com o primeiro que apareceu. Depois de dias de encontros, na maioria evitados por ela, o momento crucial chegou. Numa ligação pôs um fim na tortura. Porém, diante da insistência do rapaz em continuarem se falando, foi obrigada a vestir um papel de menina apaixonada e solicitou encarecidamente que ele não a procurasse mais, pois sofreria muito.

Infelizmente, Caríssima teve que passar por mulher frágil e ingênua para "caber" nas normas da sociedade patriarcal latino-americana. Ao iniciar o romance, percebeu certo alívio em determinadas pessoas. Imagine se dissesse que aquilo não passou de um tapa-buraco? Da maneira mais castradora possível compreendeu que, quando a prioridade de uma mulher não é o casamento, é preciso muito equilíbrio mental para provar que é uma pessoa e profissional de caráter.

O fato da igualdade sexual estar tão longínqua da sociedade latina, tornou a luta por direitos iguais em uma ideologia feminista. Como a mulher está entre os oprimidos do nosso país - negros, índios e classe operária - dificilmente conquistará o respeito devido como cidadã ativa, restando-lhe a aceitação dos baixos salários no mercado trabalhista e da permissão de usar calças nas ruas. Se porventura, levantar a voz para garantir seu lugar sem um homem do lado, será tratada como homossexual ou como louca.

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